“Teologias feministas e enfrentamento às violências contra as mulheres” foi tema do segundo Diálogos de Justiça e Paz de 2026

“Teologias feministas e enfrentamento às violências contra as mulheres” foi tema do segundo Diálogos de Justiça e Paz de 2026

Por Anna Beatriz Maciel

A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e a pastora e teóloga Romi M. Bencke debateram, na segunda-feira (2 de março), no Centro Cultural de Brasília, o enfrentamento às violências contra as mulheres a partir das teologias feministas, no segundo Diálogos de Justiça e Paz de 2026.

Na abertura, Romi questionou qual imagem de Deus orienta práticas religiosas e sociais. Para ela, determinadas interpretações teológicas consolidaram hierarquias que naturalizam desigualdades e silenciam violências.

“A teologia feminista é uma teologia crítica. Ela problematiza as relações de poder para que possamos transformar”, afirmou. Segundo a pastora, essa vertente nasce no contexto das teologias da libertação, mas introduz um olhar que considera gênero, raça e classe.

Ao questionar imagens de Deus associadas à punição, ao controle e à autoridade masculina, Romi afirmou que a religião pode reforçar ou romper ciclos de violência. Ela apontou a culpa como um dos principais instrumentos de dominação do patriarcado, ao responsabilizar mulheres por agressões que sofrem e naturalizar violências em nome da honra ou da obediência. “A vergonha precisa mudar de lado”, declarou.

A teóloga destacou ainda que igrejas, quando orientam mulheres a suportar agressões em nome da família ou da obediência, contribuem para a manutenção de estruturas violentas. “Não devemos desconfiar de nós mesmas. Devemos desconfiar quando nos dizem que precisamos ser obedientes a qualquer custo”, afirmou.

A fala dialogou diretamente com os dados apresentados por Márcia Lopes. A ministra ressaltou que o Brasil registra, em média, 190 estupros por dia e que até o momento, neste ano, já foram registrados mais de 100 feminicídios. Para ela, enfrentar esse cenário exige reconhecer raízes históricas que atravessam cultura, política e religião.

“Por que demoramos tanto para enxergar as relações de poder masculino presentes nas nossas tradições?”, questionou. Márcia defendeu que o combate à violência precisa envolver políticas públicas estruturantes, mas também revisão ética dentro das comunidades de fé.

Ela mencionou o Ligue 180, canal nacional que recebe mais de três mil ligações diárias, e destacou que mulheres negras, indígenas, migrantes e moradoras de áreas rurais enfrentam maiores barreiras de acesso à proteção. Segundo a ministra, ampliar a presença feminina nos espaços de decisão é parte da resposta institucional a essa realidade.

A dimensão racial do debate foi aprofundada por Renata Beltrão, convidada para uma participação especial no encontro. Ao situar a própria trajetória como mulher negra cristã, afirmou que a produção teológica no Brasil ainda é marcada por invisibilizações.

“Afirmar que existe teologia negra feminina é um ato de resistência”, declarou. Para ela, não é possível falar de fé ignorando que a maioria das vítimas de violência no país são mulheres negras, atingidas também por desigualdades no acesso à saúde e a direitos básicos. “Se acreditamos que Deus está nas histórias, não podemos ignorar essa realidade.”

Durante a mediação, Ana Paula Inglez chamou atenção para discursos que reduzem mulheres a papéis estereotipados, inclusive dentro de ambientes religiosos. As participantes convergiram na avaliação de que igrejas têm responsabilidade na formação ética das comunidades e podem atuar tanto na reprodução quanto na superação da misoginia.

Ao conectar crítica teológica, dados sobre violência e propostas institucionais, a edição do Diálogos de Justiça e Paz evidenciou que o enfrentamento às violências contra as mulheres também exige uma revisão profunda das narrativas religiosas que moldam imaginários, práticas e relações de poder.

O Diálogos de Justiça e Paz volta no dia 6 de abril com o tema “Aldear a política: movimento indígena em contexto de eleições”.

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